Foto: Cassio Vasconcellos

Reportagem originalmente publicada na plataforma de comunicação JornalismoColaborativo.com em Instituto Terra e um modelo global de futuro

Em Aimorés, no leste de Minas Gerais, há um lugar em que a visita começa pelos olhos, mas não termina neles. A paisagem impressiona de imediato, porém o que realmente singulariza o Instituto Terra é outra coisa: a possibilidade de caminhar por um território em que restauração ambiental, formação humana e permanência ecológica deixaram de ser promessa e ganharam corpo. Fundado em 1998 por Lélia Wanick Salgado e Sebastião Salgado, o Instituto nasceu da decisão de restaurar uma antiga fazenda degradada e, desde então, transformou uma área severamente pressionada por seca, assoreamento e empobrecimento do solo em referência internacional de recuperação da Mata Atlântica.

Hoje, essa experiência ocupa 2.346,96 hectares e se insere no contexto maior da bacia do Rio Doce, que percorre 853 quilômetros, alcança 230 municípios e reúne cerca de 3,5 milhões de habitantes entre Minas Gerais e Espírito Santo. O visitante que chega ao Instituto não encontra apenas um refúgio verde. Encontra um território-laboratório, uma área viva em que paisagem, ciência, educação ambiental e regeneração social convivem no mesmo corpo.

Foto: Leonardo Merçon

Um destino em que a paisagem voltou a ter vida

Parte da força do Instituto está justamente em mostrar que o turismo de natureza pode ser mais do que contemplação. Ao longo de sua trajetória, o espaço gestou mais de 7,4 milhões de mudas nativas, plantou mais de 3,3 milhões de árvores e registrou o retorno de mais de 235 espécies animais, entre aves, mamíferos, répteis e anfíbios. Esse retorno da fauna funciona como índice biológico, mas também como experiência sensível para quem visita: não se trata de uma paisagem montada para parecer exuberante. Trata-se de um ambiente que voltou a sustentar vida.

O próprio programa Refloresta, eixo histórico da restauração ecossistêmica do Instituto, define entre seus benefícios socioambientais não apenas a recuperação hídrica e o fortalecimento da biodiversidade, mas também oportunidades de lazer para a comunidade local e objeto de pesquisa para a comunidade científica. Esse ponto é importante para um olhar voltado ao turismo ecológico: o Instituto Terra não opera como parque temático da sustentabilidade. Seu interesse está em produzir uma experiência real de contato com uma área recomposta, onde a beleza nasce do processo, e não de cenografia.

Foto: Leonardo Merçon

É também por isso que a visita ganha outra espessura. Em vez de oferecer apenas um percurso contemplativo, o lugar convida o visitante a ler o relevo, o retorno da mata, a circulação da água, a presença da fauna e a inteligência acumulada em décadas de trabalho técnico. O turismo, ali, pode ser entendido como travessia interpretativa: uma forma de entrar em contato com o tempo ecológico e com aquilo que ele exige de paciência, método e continuidade.

Visitar para compreender o que a natureza ainda pode ensinar

Os dados de circulação de pessoas ajudam a perceber que esse papel público já está em curso. Somente em 2024, 151.811 visitantes passaram pelo Instituto Terra e levaram consigo conhecimento sobre o meio ambiente. No mesmo ciclo, as ações de educação ambiental alcançaram 92.853 pessoas, enquanto programas como Terrinhas, Terra Jovens e NERE reforçaram a vocação do Instituto como espaço de formação, sensibilização e contato direto com a realidade da restauração.

Esse dado é especialmente revelador. O Instituto Terra interessa ao turismo porque oferece algo cada vez mais raro: uma experiência de natureza ancorada em sentido. O visitante não sai apenas com imagens bonitas ou com a impressão de ter conhecido um lugar preservado. Sai com uma compreensão mais nítida da fragilidade dos biomas, da dificuldade de restaurar um território degradado e da possibilidade concreta de reconstrução. Em uma época em que o turismo ecológico muitas vezes corre o risco de se reduzir a consumo visual, isso tem peso.

Essa experiência se amplia porque o Instituto também atua como ponto de conexão entre a floresta restaurada e o mundo rural do entorno. Na frente de desenvolvimento rural sustentável, a instituição já beneficiou 1.484 famílias, recuperou 2.426 nascentes, implantou 516 biodigestores e realizou 704 benfeitorias em água e solo. Em termos turísticos, isso significa que o destino não está isolado de sua paisagem humana. A regeneração não acontece apenas dentro dos limites da sede. Ela alcança a vida produtiva, a água, o solo e a permanência no campo.

O ecoturismo do futuro talvez seja este

Na carta que abre o relatório de atividades de 2024, Juliano Salgado, presidente do Conselho Diretor, afirma que o Instituto vem se preparando para exercer o protagonismo necessário diante do agravamento da crise climática, propondo caminhos para a resiliência e para a transformação das práticas e dos valores da sociedade agrícola. No mesmo documento, ele descreve a ampliação da área preservada e a construção do novo viveiro, com capacidade para até 2 milhões de mudas por ano, como parte de uma expansão que fortalece o papel da floresta como “referência viva para o mundo”.

Foto: Leonardo Merçon

Em respostas enviadas ao Jornalismo Colaborativo, Juliano reforça esse horizonte ao dizer que o passo mais decisivo hoje é ampliar soluções que integrem restauração, desenvolvimento rural e justiça territorial na bacia do Rio Doce. Sua formulação interessa diretamente ao debate sobre turismo ecológico porque desloca o olhar: a natureza deixa de ser apenas cenário admirável e passa a ser base de um novo modelo de desenvolvimento. O mesmo vale para a educação, que ele trata como parte central desse futuro, já que restaurar paisagens, em suas palavras, exige também formar pessoas capazes de cuidar desses territórios ao longo do tempo.

Talvez esteja aí uma das lições mais fortes que o Instituto Terra oferece ao turismo brasileiro. Ecoturismo, ali, não é somente deslocamento para uma área verde. É encontro com um território que reaprendeu a sustentar vida. É observação, escuta, aprendizado e permanência. É a chance de perceber que uma floresta recuperada também pode reorganizar a economia local, a relação com a água, a formação de jovens e a imaginação do futuro.

Foto: Cassio Vasconcellos

Em um país acostumado a perder paisagens antes mesmo de compreendê-las, Aimorés oferece uma inversão rara. Ali, visitar é também testemunhar uma reconquista. E talvez o turismo ecológico mais relevante do nosso tempo comece exatamente com menos fuga e mais aproximação de um lugar que ainda tem algo essencial a ensinar.


Fonte: Jornalismo Colaborativo

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